Indígenas protestam ocupando balsa da Cargill em rio do Tapajós

Um grupo de aproximadamente 400 indígenas realizou uma barqueata no rio Tapajós, em Santarém (PA), após passarem 29 dias ocupando o terminal de cargas da multinacional Cargill. O protesto foi motivado pela concessão de hidrovias à iniciativa privada na região, em repúdio ao decreto 12.600/2025, que abre caminho para a privatização do uso do rio.

Os manifestantes exigem a derrubada do projeto e denunciam a falta de consulta prévia, informada e livre às comunidades indígenas potencialmente afetadas pela hidrovia do Tapajós, direito garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Segundo as lideranças, a intenção do protesto era alertar o governo federal e a sociedade sobre os impactos da transformação dos rios amazônicos em corredores de exportação.

O decreto nº 12.600/2025 inclui mais de 3 mil quilômetros de rios amazônicos no Programa Nacional de Desestatização (PND), abrangendo trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. Para Auricélia Arapiuns, liderança indígena do Baixo Tapajós, a norma beneficia apenas empresas estrangeiras que se aproveitam das violações de direitos humanos e ambientais na Amazônia.

Após a ocupação, uma lancha da Polícia Federal se aproximou da barqueata, conforme imagens divulgadas pelas lideranças indígenas. A multinacional Cargill, que se posicionou respeitosamente em relação às manifestações, teve suas operações impactadas e temporariamente interrompidas. A empresa está em contato com autoridades para que a desocupação aconteça de forma pacífica e segura.

As lideranças também solicitam a anulação do processo de dragagem do rio, vinculado à concessão da hidrovia. Embora o governo tenha suspendido o processo em fevereiro, os indígenas exigem a anulação definitiva da medida, destacando a importância de respeitar o equilíbrio natural do rio e evitar consequências negativas para a região.

A mobilização, liderada pelos povos do Tapajós, recebeu reforço nas últimas semanas, com a chegada de indígenas de outras regiões. O movimento já conta com cerca de 1.200 pessoas e apoio de diferentes povos e movimentos de outras áreas impactadas na região amazônica.

Arco Norte

Os protestos acontecem em um momento em que o corredor logístico do Arco Norte, rota para o escoamento de grãos do Centro-Oeste através da Amazônia, está em expansão. O projeto inclui a Ferrogrão (EF-170), que ligará Sinop (MT) a Miritituba (PA), com leilão previsto para setembro.

O transporte atualmente é feito por caminhões pela BR-163, em direção aos portos em Itaituba, Santarém e Barcarena. A Ferrogrão promete reduzir os custos de transporte do agronegócio, mas levantamentos apontam que o projeto pode afetar terras indígenas, unidades de conservação e povos isolados.

A analista Renata Utsunomiya ressalta a importância de analisar os impactos cumulativos do projeto Arco Norte, que, juntamente com a expansão de portos privados e a Hidrovia do Tapajós, pode aumentar significativamente a pressão sobre territórios tradicionais e ameaçar as metas climáticas do país.


Imagem de abertura: Ocupação na balsa de grãos da Cargill durante a barqueata. Foto: Coletivo Apoena Audiovisual/Divulgação

Este conteúdo foi originalmente publicado no site InfoAmazonia.

By Notícias Manaus

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